Impactar? Desafio aceite!


Hoje, pela primeira vez aqui na escola, tive uma boa noite de sono! Temos progresso, afinal hoje só vi uma baratinha pequena a sair da casa de banho e foi já de manhã :) Finalmente deixei de ver baratas no quarto! Tapei a ligação à casa de banho e os químicos que encontrei na cidade estão a resultar!

O dia começou com o habitual pequeno almoço, arroz com carne de porco, e pouco depois já estava na escola!

No primeiro dia uma voluntária avisou-me que um dos miúdos era especial… não se sentava durante a aula, nem tirava a mochila. De vez em quando, até desaparecia da aula sem o professor dar conta. Ainda tentei leva-lo até uma cadeira, mas sem sucesso. Aquela criança não soltava uma palavra e nem gostava que lhe tocasse. Fechava-se muito e Dias depois, com algum esforço, consegui que ele se sentasse. Devagarinho e com paciência, ensinei-o a dizer, escrever e soletrar monkey. Aprendi na internet e desenhei-lhe um macaquinho no caderno, que não tinha uma única marca de uso. Cada vez que ele conseguisse acertar eu dizia “give me five” e ele adorava! Com calma, acabou por escrever macaco 10 vezes e foi o ultimo a sair da sala! Desenhou com o meu marcador no quadro e escrevia monkey mesmo sem eu lhe pedir.

Foi incrível, são crianças que só precisam de um bocadinho de atenção e têm uma enorme capacidade de aprendizagem. Hoje de manhã veio mostrar-me o caderno e lá estava o trabalho de casa feito… e bem feito :) Fiquei com um sorriso e dei-lhe mais um high five que ele tanto adora. Demorou algum tempo a conquista-lo, mas posso dizer que comecei agora a sentir a verdadeira força do impacto! Aconteça o que acontecer, a minha marca por cá já está deixada e vejo nos olhos desta criança que algo mudou! Pela primeira vez vi-o entrar na sala com um sorriso e a sair com outro! São estas coisas que nos fazem esquecer as dificuldades e perceber que vale a pena todo o caminho até aqui. Acredito que quando fazemos o bem, ele é-nos devolvido mais cedo ou mais tarde! E tudo aquilo que vai, volta. É a lei do retorno. O almoço continua a ser difícil de digerir! Ontem não acabei de comer para não ficar mal disposta e hoje comi umas bolachas. O director viu-me e perguntou se já tinha almoçado, eu respondi que ainda não estava a conseguir adaptar-me à comida e que ia comer as bolachas. Ele olhou para as bolachas, disse ok e foi-se embora. Cresce Inês, és tu que crias o teu conforto e já és adulta para comer aquilo que te dão - ouvia a minha consciência, cheia de razão. Seja como for, amanhã de manhã vou tentar perguntar se podem fazer outra coisa para mim. Preciso de ir com calma e com este calor tenho que me alimentar bem para ser mais fácil aguentar a tarde. O dia continuou, a segunda turma é boa!! Continua a ser uma turma que está a aprender o alfabeto e algumas palavras, mas já me respeitam mais enquanto professora. São umas crianças amorosas que têm vontade de aprender! A noite caiu e combinei com o director para jantar às 19:30. À hora marcada desci e ainda não estava ninguém, mas encontrei a comida feita e as luzes acesas. Sentei-me e esperei cerca de 30 minutos, sempre atenta a qualquer movimento pois já era de noite, havia silêncio e o ambiente era demasiado propício às boas vindas dos ratos, que vêm rondar a comida. Ninguém apareceu. Jantei sozinha, tentando animar-me a mim própria, tanto quanto pude. Agora já tomei um banho e estou no quarto a preparar-me para mais uma noite de sono. Tento combater a solidão mas é difícil, ter jantado sozinha hoje, não veio a calhar. Não percebo muitas coisas, pelo que sabia eles jantam sempre com os voluntários. Mas seja como for, talvez sejam as rotinas deles... Por muito difícil que esteja a ser agora, há-de melhorar! Vou deixar a conversa com a família para amanhã, que hoje a voz do meu coração é mais alta e para os deixar preocupados não vale a pena. Por agora o dia termina assim, amanhã é um novo começo!

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