O primeiro impacto.

27 de Agosto de 2016


Escrevo sentada no chão que tem sido a minha cama, depois de uns dias intensos e com as emoções à flor da pele.

É a primeira vez que escrevo desde que cheguei, os dias têm sido cheios mas confesso que não sei se terá sido a falta de tempo ou a enorme instabilidade emocional a impedir-me de transpor em palavras, aquilo que tenho vivido . Seja como for, agora já me sinto melhor.

À minha espera estavam três jovens da Associação que foram muito simpáticos e deram-me logo internet para contactar a família e amigos mais chegados.

Quando dei por mim já eles me tinham entregue a um tuk-tuk e lá ia eu, sozinha pela cidade fora.

A viagem do aeroporto à escola foi incrível, o meu estado de espírito estava no auge e já estava a adorar!! Depois de conhecer tão bem Angola, não seriam as principais ruas de Phnom Penh que me surpreenderiam.

Uma hora depois cheguei à escola, lá estavam as pessoas à minha espera. Apresentei-me e subi três andares para ver o quarto. Bem, talvez a palavra quarto não seja a mais indicada…

Uma voluntária chinesa abriu a porta e vi quatro paredes com uma janela nua que dava para uma sala de aulas, metade do chão coberto com as coisas dela e outra metade com um tapete castanho, sujo. Com um tom amável, ela disse “podes ficar aqui comigo, neste tapete”.

Limitei-me a sorrir e pousar as minhas poucas coisas no cantinho do tapete.

Já no rés-do-chão com as outras voluntárias e depois de ver uma ratazana a sair da cozinha, sento-me num banco de baloiço. As lágrimas foram inevitáveis, a minha cabeça ainda estava presa à vida que tinha em Portugal e estava a acontecer tudo incrivelmente rápido. Se me dissessem que seria essa a minha reação, não acreditaria.

Mais tarde, a boa notícia que eles tiveram para mim foi que íamos jantar ao mercado. Fomos no tuktuk do director da escola.

- Mais um choque -

As principais regras já tinham que ser quebradas: não comer vegetais crus, não tocar em bebidas da rua e jamais consumir água que não seja engarrafada. Como não me preparei bem para esta viagem, nem sequer tive consulta do viajante.

A noite já tinha caído e sentámo-nos numa mesa comprida de metal, num mercado de rua. Não sei o quê ao certo, mas provei (quase) tudo! Os sabores e as texturas eram muito diferentes, senti que precisava de ir com calma mas para além de ter fome, não estava em posição de recusar nada.

E ainda deu para ver uma rapariga a comer um ovo estragado, já com um animal em desenvolvimento no interior - terrível, já tinha ouvido falar mas fiquei enjoada e jurei não provar! Como eram os últimos dias das voluntárias que estavam lá, já estavam dispostas a provar de tudo e por isso antes de irmos embora passámos por uma barraquinha onde compraram as mais rebuscadas iguarias com aspectos que não consigo sequer descrever.

Acabei por sair de lá outra vez sem aguentar segurar as lágrimas! Mas onde é que me fui meter?

Já em casa, a noite continuou a ser difícil! Tomei um banho frio à luz da lanterna, que ajudou a diminuir o peso do estado de espírito. A voluntária chinesa que estava comigo tentou conversar, fazendo um monólogo sobre como ia ser o meu progresso durante as quatro semanas e como passam todos pelo choque - “don’t worry, you will be better tomorrow” foi a única coisa que registei.


Já nem liguei à família, limitei-me a deixar mensagens a dizer que estava tudo bem.

Chorei tudo e na esperança de que o dia seguinte fosse melhor, adormeci.


- Não crescemos quando as coisas ficam fáceis, mas quando enfrentamos os nossos desafios! Nota: Revejo esta parte do meu diário hoje, em 2020. Passaram alguns anos e acho piada à forma como descrevia tudo. Se no final desta aventura a minha perspectiva era diferente, hoje então é completamente antagónica. O tal ovo estragado não é ovo estragado, é uma iguaria típica na Ásia chamada balut - um petisco que consiste num ovo cozido com um feto de pato no interior. Eu tinha 19 anos e lembro-me de a minha irmã me dizer que era muito cedo para eu fazer uma viagem daquelas e que devia esperar ter mais maturidade. Hoje, com 23 anos não podia ter mais orgulho de ter dado o salto e de agora, ao olhar para trás, pensar: era mesmo tenra.

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